sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A Intertextualidade na Música Monte Castelo de Renato Russo

RESUMO

O artigo trata da conversa que o compositor Renato Russo trava em sua música “Monte Castelo”, com o famoso poema de Luís de Camões “Amor é um fogo que arde sem se ver” e com o texto bíblico “O amor é um dom supremo” escrito pelo apóstolo Paulo à Igreja de Corinto. Há ainda a alusão do título da música a uma batalha da Segunda Guerra Mundial vencida por soldados da Força Expedicionária Brasileira; batalha na qual, apesar da vitória, ocorreu uma baixa de 1000 pracinhas. A motivação em se trabalhar a intertextualidade presente nessa música veio da observação do ajustamento perfeito do tema “Amor” que o compositor conseguiu mesmo promovendo o diálogo entre obras tão distintas como o poema de Camões, que fala de um amor Eros (homem-mulher, possessivo) e a carta de Paulo, esta tratando do amor Ágape (o amor altruísta, generoso). Dessa forma, o objetivo foi encontrar na música o elemento chave que une os dois textos e seu título. Assim, foi feito o estudo dos três textos e o contexto em que foram escritos, chegando-se à afirmação de o amor ser tratado como um sentimento que se concretiza na ação; e esta sempre acarretará em alguma forma de dor nobre.
Palavras-chaves: Intertextualidade, Monte Castelo, Amor.

ABSTRACT

The article is about a talk between Renato Russo’s music “Monte Castelo”, the famous poem from Luís de Camões “Amor é um fogo que arde sem se ver” and the Bible text “O amor é um dom supremo” written by apostle Paulo to Corinto’s Church. There is a conecttion between the name of the music and a batlle from Second World War, won by Brazilian Force soldiers; in which, in spite of victory, 1000 soldiers were killed. The motivation to work the intertextuality presents in this music came from the observation of the theme “Love” that the composer got even promoting dialog between so different works like Camões’ poem, that talks about an Eros love (man-woman, possessive) and the Paulo’s letter, about an Ágape love (altruistic love, generous). This way, the objective was to find in that music the key element which links both texts and title. So, it was done the three texts study and the context in which they were written, concluding love is trated as a feeling that happens through action; and this action always will end in some way of noble pain.
Key words: Intertextuality, Monte Castelo, Love.


No estudo relativo à Lingüística Textual, aponta-se como uma das condições de textualidade a referência (explícita ou implícita) a outros textos orais, escritos, visuais, entre outros. Esse “diálogo” entre textos chamamos de intertextualidade. E sua importância é tamanha a ponto de se afirmar que

“A competência em leitura e em produção textual não depende apenas do conhecimento do código lingüístico. Para ler e escrever com proficiência é imprescindível conhecer outros textos, estar consciente de suas relações intertextuais, pois um texto nasce a partir de outros”. (Guia de Produção Textual)

Dessa forma, nossa compreensão de um texto acontece de acordo com o conhecimento de mundo e com o universo de leitura. Quanto mais ampla for a gama de conhecimento geral do leitor maior será a sua competência para saber que o um texto dialoga com outros por meio de referências, alusões ou citações.
Ser sensível ao que outros autores escreveram para, a partir de então, iniciar a sua própria escrita é a chave para o universo da intertextualidade. Pode-se, portanto, fazer a seguinte declaração

“Quem escreve não escreve no vazio, pois um texto não surge do nada. Pode-se dizer que escrever é a habilidade de aproveitar criticamente, criativamente outros materiais interdiscursivos, outros textos. É por isso que quem lê está em situação privilegiada para escrever, uma vez que se apropria, mediante a leitura, de idéias e de recursos de expressão”. (Guia de Produção Textual)

Na música Monte Castelo a intertextualidade foi aplicada de forma muito rica. Renato Russo apropria-se de dois famosos textos sobre o “amor” e constrói, a partir deles, a sua mensagem para uma geração que, talvez, induzida pela cultura rebelde dos anos 80, não estivesse muito a par de dois escritores tão “distantes” desse novo mundo do século XX e sua mensagem de sexo, drogas e rock roll.

CONTEXTUALIZANDO OS TEXTOS

O poema de Camões data do século XVI e compõe a vasta gama de produção do período do Classicismo. O poeta viveu experiências que formaram o “seu dramático mundo inconfundível” segundo Geraldo Mello Mourão. Dessa forma, sua expressão foi afinada por uma realidade trágica. O soneto foi produzido em uma época que ainda sofria resquício cultural da Idade Média, principalmente no tocante ao fato de que

“A literatura ainda era vista como um importante instrumento de formação moral dos homens nobres: tinha, portanto, caráter moralizante e aristocrático”. (Ulisses Infante)

Ele tenta, em vão, conceituar o Amor; mas só consegue demonstrar que qualquer tentativa semelhante, ao final, levará ao ponto de partida. Em Camões, o amor sempre é propositadamente contraditório, pois o poeta quer mostrar que é desse paradoxo que se origina a sua grandeza para dominar, de forma delicada e imbatível, a vida do ser humano, ser tão complexo em seus sentimentos. O tratamento dado ao tema no soneto é visivelmente ligado ao sentimento humano entre um homem e uma mulher, o amor romântico, seja ele correspondido ou não. O amor Eros está sempre ligado à falta, ao sofrimento, uma vez que um amante nunca está saciado do outro. Assim, a mensagem enfatiza que, embora haja sofrimento no amor, ele sempre é, contraditoriamente, acompanhado pela amizade e toda sensação causada por ele, aprazível ou não, é nobre e enobrece o ser que ama.
Já na carta do apóstolo Paulo à Igreja de Corinto, registrada na Bíblia, o contexto é bem diferente. A carta foi escrita em Éfeso, no século I d.C. e teve seu direcionamento orientado por três situações: primeiro, depois de um incidente com filósofos atenienses, Paulo resolvera se centrar na mensagem simples da cruz; logo depois foi forçado pela oposição judaica a focalizar o seu ministério para os gentios e em terceiro lugar, a congregação de Corinto, composta por judeus e gentios havia florescido de forma preocupante no tocante há vários pontos do evangelho. Corinto era uma das maiores cidades do mundo romano e uma das mais corruptas, assim a Igreja estava repleta de problemas sérios, entre eles a divisão interna que estava despedaçando as relações entre os crentes. Portanto,

“Paulo havia sido confrontado com uma tarefa enorme, e esta longa carta aos Coríntios foi uma tentativa de tratar o problema”. (Bíblia de Genebra)

Centrando esse contexto especificamente no trecho intitulado O amor é um dom supremo, no capítulo 13 de 1Coríntios, percebemos uma mensagem que fala de um amor no qual há total ausência de interesse próprio.

“O amor busca o bem do próximo, e a sua verdadeira medida é o quanto ele dá para que se alcance tal fim. Mais do que simples emoção, o amor é um princípio de ação. É uma questão de fazer algo pelos outros por compaixão a eles, sem levar em conta se sentimos ou não afeição por eles”. (Bíblia de Genebra)

Paulo fala aos Coríntios de um amor que eles não conheciam, o amor ágape, aquele que se sacrifica pelo bem do outro. É um amor prático, abnegado, que não espera nada em troca.
Compreendendo a situação de produção dos dois textos que baseiam Monte Castelo, é interessante questionar o motivo de tais textos serem musicados por um grupo de rock nos tumultuados anos 80.

GERAÇÃO 1980

A década de 80 é evidenciada pelo movimento das “Diretas Já”. Foi nessa época também que o neo-liberalismo passou a ser adotado em detrimento ao comunismo, o que levou ao domínio do mundo pelos Estados Unidos. Atribui-se a essa época, também, a popularização do rock brasileiro e o início da valorização suprema da imagem. Foi uma época que, para a história, ficou conhecida como a “década perdida”.
É nesse cenário conturbado para a formação de uma juventude, que o grupo Legião Urbana, idolatrado pelo público jovem, lança a mensagem de Monte Castelo.

UM CENÁRIO, UM ENCONTRO

Diante do que já foi dito, pode-se perceber, precedendo mesmo a análise dos textos, algo em comum nos contextos acima descritos: a necessidade real de se ensinar sobre a grandeza do amor para um público que, aparentemente, a teme, desconhece ou não lhe concede a importância devida. No soneto, o poeta fala sobre a dor que o amor humano causa, mas, ao mesmo tempo, em como essa dor é prazerosa a ponto de o amante querer estar preso por vontade [ v.9], portanto, não há o que temer diante dele. Podemos interpretar essa lição como dada a outros poetas desse tempo, os quais se prendiam à imagem platônica do Amor por seres ideais, superiores e desprezavam o sentimento humano carnal. A carta é enviada pelo apóstolo no intuito de ensinar alguns preceitos cristãos para os coríntios, tão necessitados de orientação em meio a tantos erros, tristezas e depravação, e não há nenhum ensinamento maior do que o do amor. Dessa forma, a música promove o encontro dessas duas lições sobre o amor de caráter ativo e nobre, mesmo na dor, diante de uma juventude carente de ideais, valores humanos maiores e mais individualista, se comparada a gerações passadas. Portanto, observa-se que entre os três textos já existe intertextualidade em relação ao contexto em que eles foram escritos e, dependendo da leitura que se faça, pode-se afirmar que a mensagem final também será a mesma, levando em consideração, claro, todas as diferenças existentes entre elas já citadas aqui: o conceito do amor como um sentimento que causa dor ao mesmo tempo em que enobrece o ser amante, pois leva a ações que buscam o bem do outro.
Uma outra intertextualidade presente em Monte Castelo, mas não tão visível ou conhecida como a música em si, é o seu próprio título, o qual faz alusão a uma batalha da Segunda Guerra Mundial.

“A conquista do Monte Castelo na cordilheira apenina, no norte da Itália, foi uma atuação heróica dos soldados brasileiros. Mesmo mal treinados, com equipamento inadequado e enfrentando um frio de até 15 ºC negativos, eles conseguiram derrotar as forças alemãs que estavam entrincheiradas no alto do monte Castelo. O resultado das operações conjuntas com outras forças na batalha foi a expulsão dos alemães dos montes Apeninos, permitindo uma ofensiva dos aliados no norte da Itália que marcaria o fim dos confrontos no país”. (Roberto Navarro)
O planejamento da ação mostrava o grande perigo que os soldados enfrentariam, eles mesmos sabiam disso, apesar de não se falar abertamente sobre o caso. No entanto, eles não desistiram, sabiam que estavam ali por um bem maior, para derrotar a gigante Alemanha Nazista que já havia lançado seus princípios podres em solo brasileiro. No final da ofensiva, 1000 homens brasileiros não voltaram para suas casas.
Renato Russo não nomeia essa canção de forma aleatória. Para falar de um amor supremo, que conhece a verdade, age de forma a propiciar o bem do outro e não se desencoraja diante da dor nada melhor do que nomeá-la com um episódio que demonstrou esse amor maior de forma concreta.
Observando mais diretamente os textos (ver anexos), é evidente a intertextualidade na letra de Monte Castelo com os outros textos já citados, pois ela é toda construída a partir de um “diálogo” entre eles. Somente em um verso, o compositor usa palavras suas, é o que podemos constatar no verso 21 da música que diz

Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem.

O cuidado com que o compositor construiu a sua obra, trabalhando a intertextualidade em tudo o que foi possível, faz nascer o questionamento do por que nesse trecho, em especial, não há intertextualidade, pelo menos não conhecida. Uma possível resposta seria voltar ao conceito do amor como sentimento que leva à ação e, por ter tomado consciência disso, o compositor coloca-se como “acordado”, mas os que ainda não perceberam “dormem”, ou seja, não estão prontos para agir. Outra leitura possível é observar que na música ele faz intertextualidade com três referências diferentes ao amor, mas, no momento, enquanto todos os outros autores e personagens “dormem” (estão mortos), somente ele está acordado (vivo) para repassar a mensagem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo do artigo percebeu-se que a intertextualidade pressupõe um universo histórico-social e cultural muito amplo, pois, além de exigir do leitor a capacidade de compreender a função da alusão a outros textos, pressupõe a identificação das referências, o conhecimento de mundo, que deve ser comum ao produtor e ao receptor do texto e o reconhecimento de remissões a obras e acontecimentos gerais.
Nessa perspectiva da língua como instrumento de interação social, ficou evidente, então, o importante papel da intertextualidade para a concretização dos objetivos e intenções do produtor do texto, e para o reconhecimento do leitor desse fator de textualidade, na construção do(s) sentido(s) do texto.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Texto escrito em 2006

22 comentários:

Marcio disse...

Maria, eu sou fã dessa música desde sempre! Parabéns pelo excelente texto. Bjs.
Marcio

Edvaldo disse...

Parabéns Léa Mara. Fantastico!

Ana G. disse...

Realmente, muito bom texto! Parabéns.

Adriano nano_barreto@yahoo.com.br disse...

Muito boa a análise feita desta grande canção de Renato Russo. Só queria aqui sugerir na passagem do verso "todos dormem" acredito ser a noite em que Jesus Cristo foi entregue para a crussificação e esteve com seus dicípulos preparando-so para não dormir, porém eles "pegaram no sono" e somente Cristo continuou acordado

Jadyane disse...

Parabéèns Adorei o texto,
Ele me ajudou muito ,
Obrigodo !
bjoo :)

Igor José disse...

Parabéns Lea Mara, esse artigo está ótimo, e é justamente o que eu estava procurando, ainda mais por se tratar justamente de uma das músicas que eu mais gosto da Legião Urbana.

Jô. disse...

Sou formada em Letras pela UFC porém hoje trabalho com estética pois me decepcionei com o mundo das Letras. Peeeense!!! O seu trabalho está tão incrível e perfeito que nesse momento me deu uma vontade de trabalhar com textos como outrora.Valeu!

IONE disse...

Excelente análise do texto.
Estava procurando uma apresentação para meus alunos.
Quanto conteúdo e quanta grandeza dentro dele.
Obrigada!

Adelaide disse...

Nossa, amei! Estava procurando exatamente o que vc escreveu para embasar um trabalho com os alunos.

Anônimo disse...

nossa Parabéns
eu estava pesquizando p/ um trabalho
de escola e era tudo o que eu precisava muito bom sua interpretação e informação ao leitor gostaria de ler mais...

ulhi*anne lima disse...

nossa Parabéns
eu estava pesquizando p/ um trabalho
de escola e era tudo o que eu precisava muito bom sua interpretação e informação ao leitor gostaria de ler mais...
Ulhiane Gehringer

Fabiana disse...

Léa, muito bom mesmo o seu texto. Parabéns!

Silvia Biezon disse...

Léa Mara,
Parabéns pela excelente análise da letra da canção.
Concordo com o comentário do Adriano Barreto sobre a passagem do verso "todos dormem", creio que Renato Russo usou a passagem citada na Bíblia a respeito de Jesus, que ressalta mais uma vez o amor ágape.
Paulo escreveu também o verso a seguir: "Agora vejo em parte, mas então veremos face a face", no versículo 12 do capítulo 13 da primeira carta enviada à igreja de Corintios:
"Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido."
Uma possível interpretação para esse trecho é que a nossa natureza humana não nos permite compreender e viver o amor ágape na sua plenitude, por isso, o enxergamos "em parte" e somente entenderemos a grandeza do amor quando estivermos com Deus, na eternidade, e assim conheceremos o amor pleno de Deus da mesma maneira que Ele conhece.
Mais uma vez, parabéns pela análise.
Silvia Biezon

Anônimo disse...

Obrigada, excelente!!!!!! Vou trabalhar com meus alunos em sala de aula! Parabéns pelo trabalho!

Anônimo disse...

Quando ele diz "...todos dormem, todos dormem...", creio q/ seja uma alusão a famoso e bom poema de Manoel Bandeira, intitulado Profundamente (sobre a morte).

Marcia Patricia Santos Klem disse...

Uau... amei a análise e com certeza se essa era minha canção favorita, agora ficou sendo mega favorita.
Sempre procuro análises de músicas para conhecer a profundidade e a realidade de cada verso.
Parabéns, você é excelente!

Prof. Guto disse...

Olá. Na canção "Monte Castelo", de Renato Russo, há dois momentos de intertextualidade conhecidos. O primeiro refere-se ao texto de Camões e o segundo, a passagem bíblica (Coríntios). Ontem, relendo a canção, percebi que, talvez, há outro trecho de intertextualidade quando diz "estou acordado e todos dormem, todos dormem". Para mim, parece que o texto estabelece relações com o poema "Profundamente", de Manuel Bandeira. O que vocês acham? Será que estou "viajando na maionese" ou "pirando na batatinha"?rsrsrs

luaninha disse...

muito obrigada texto muito bom me ajudo muito

Hellen Pamela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lara (; disse...

Aplausos com louvor à brilhante análise do texto. Meus Parabéns !

Larice-prévestibulanda ..

Carolina Silva disse...

NÃO CONSEGUI,ATÉ HOJE,VER UM ANALISE, TAO OBJETIVA E ÓTIMA, SOBRE ESSA INTERTEXTUALIDADE NA MÚSICA MONTE CASTELO...
VOCÊ CONSEGUIU MEXER COM MEU INTERESSE E COM MINHA VONTADE DE QUERER APRENDER MAIS SOBRE O TEMA PROPOSTO.
PARABENS

Anônimo disse...

Parabéns pelo excelente trabalho. Estou citando-a num trabalho meu.